terça-feira, 10 de abril de 2012

À não-morte...

E quando acordo, amor, jaz um vão do meu lado e nesse vão, um rastro e no rastro um signo, tudo sobre o resto espaçoso de cama do meu lado, espaço vão, conforto inútil, nesse instante mais me valeria um catre, tão escasso e impassível esse meu amontoado pouco de carne; ergo-me sonolento, com algum pesar, pesar que vai se esvaindo um pouco a cada novo pouco passo até o instante em que finda o derradeiro resquício de sono do corpo, nesse momento algum amargor quente, pelante de café forte tragado com certa imprudência de primeira vez já se faz notar, queimando meu peito depois de deixar um calor intenso na garganta depois de magoar com a mais pura ardência a minha língua que pouco atesta o fato de em mim haver um cérebro que vive alguma vida – essas vidas digressivas dos cérebros, querida –, porém, esse cheiro de café queimando, e que sempre foi o melhor do que de café há, de repente faz pouco sentido e tateio, tateio como se voltasse às primevas infâncias, tentando colocar algum sentido nas coisas e quando desiludido volto a mim, esses meus pés já ganharam a rua e na rua eu poderia dizer que cercado estou por um mundo, por um cotidiano em que reinam as probabilidades e todas as coisas prováveis que tomam seu lugar a todo instante no seio das coisas, e, nas coisas, entendo sociedades, famílias, casas ou um qualquer coração solitário; morro muitas vezes nos meus até aqui – entenda em nome de todos os deuses que meu espírito errante já assassinou – muitos dias, minha pequena, várias são as vezes em que meu pescoço se parte, num tropeço, num deslize, numa queda composta tal qual fruta madura de pé de árvore, lá meu pescoço quebrado; automóveis que passam distantes, distantes, lentos, lentos num rompante se me desvelam amassando meus ossos tão carentes, ali, a um passo a minha frente; aviões que concentram tudo quanto há de hermético em se resolver pousar na minha parca coluna pousam na minha parca coluna; num repente estou morto, amor, e, nessa minha solidão de quem não conta um amigo tenho os restos defuntos descobertos pelos odores os mais sepulcrais que desprendem-se do meu pós-corpo e viajam uma viagem de átomos nus, imperceptíveis senão pelos cheiros verdes, cheiros de morto, cheiro morto, que encontram seu lugar ao sol nas narinas dos passantes; mas tudo devaneios, querida; corro os dias invisível em mortes de certa forma tão intermitentes, tão em momentos suspensos como o mundo de tabaco, de nicotina – pra denominar de formas diferentes o mesmo veneno – em que mergulho todas as manhãs, que talvez minha própria Morte personificada já se movimente perdida num desses corredores em que me desfaço, erguendo minhas inúmeras cabeças sobre os inumeráveis pedaços de pescoço partido a procura daqueles olhos que provavelmente a fitariam com um brilho que só a ela é conferido, Digressões! Digressões!, digressões – o fato é que volto, como que no impasse da fantástica Estrela eu volto, seguindo-a, fazendo todo esse maldito, desventurado, mal-quisto, infeliz, desditoso, desgraçado, anatemático, infausto e até dantesco caminho contrário, por esse caminho inglório em que nem a maior brecha permite o mais frouxo olhar de Fortuna eu volto, amor, com, ainda, as colunetas de fumo me deixando as narinas e uma preguiça nos pulmões, com, ainda, um cheiro de álcool no corpo, entrando no quarto escuro como uma alcova, sento no meu lado da cama, liso, arrumado, um signo falando de um signo que este signo apagou, meus olhos se acostumam a escuridão e então, vejo tuas formas preenchendo os sinais que elas deixam pela manhã, tu, inteira e sublimemente adormecida, não dizes uma palavra, não me faz um gesto, pouco se move e não diz que me ama, mas é neste momento, tão concreto em estranha solidez que me deito do teu lado, sinto aquela sonolência quase angelical voltando aos olhos e aos membros, um torpor irremediável de tão bom, de estar de novo do teu lado que sou tomado mais uma vez, dessa a vez derradeira, pelo pensamento de morte: é que aqui, amor, nesta noite, eu sei que não vou morrer.

A. do Carvalho...
...em 01 de abril, 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012


Impressionante a semelhança entre Zuzu Angel – estilista brasileira, figura de nosso passado recente que desencadeou uma verdadeira guerra contra a ditadura militar – e Antígona – personagem da tragédia grega de mesmo nome do dramaturgo grego Sófocles –, mulheres sem partidários que abalaram a sociedade de sua época ao se erguer contra a injustiça, contra seu ditador, e a favor de tudo quanto seu espírito apontava como justo. Zuzu Angel que ergueu a voz, matriarcal, ao gutural quando isso por si só naquela época ditatorial já era uma forma de selar o próprio suicídio, Antígona, mulher fraternal, filha de Édipo, que chorou, enterrou e honrou com exéquias a quem fora proibido a proteção de uma tumba, num momento em que nenhum homem ousou pisar nas leis do déspota, numa época muito anterior a de Aristóteles que as considerava – as mulheres – seres inquestionavelmente (e é questionável esse inquestionável) inferiores. Zuzu foi assassinada, Antígona não encontrou outra saída senão o suicídio e o único objetivo de ambas era: enterrar aquele que lhes era caro.
Segue minha homenagem às mulheres, não só a todos esses espíritos guerreiros de diferentes épocas trazidos a tona pela grandiosidade de mentes artísticas ou cravadas na realidade da História, mas a todas que simplesmente são no mundo, à sua natureza (superior, certo está) feminil e a tudo que há de sacro em vocês. Não duvidem nem por um momento que, apesar do dia, que é de vocês, a felicidade é toda nossa.
Belo (o) dia da mulher.
Segue “Angélica”, por Chico Buarque de Holanda

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O mouro...

É, e tão extensos foram os dias,
tão longas e furadas as horas – as passadas e as que ainda se arrastam – no mar,
que conserva no movimento, no trajeto, no percurso do corpo um incerto tom de
vaga, um impreciso balouço, somente o preciso para a não extinção total do
corpo que é, somente o suficiente para a infausta fragmentação parcial da
estrela perdida que vem sendo e vai sendo, singrando a procura do aberto das
coisas; é, e no seu avesso, onde se detém, sem que o saiba, o seu íntimo,
correm os corpos, correm as fontes, os cantos das sereias como promessas de uma
Shangrí-la em que no final só restará a ilusão da fuga, correm roedores, correm
ratos de todos os tamanhos a outra ponta da nau onde talvez e só talvez
encontrar um cantinho seco por alguns minutos e que sejam esses minutos
comaquelas extensas – ainda que torturantes – horas sem fundo; e, abarcando
esse desespero de ratos, essa fuga, esse tatear cego, as ondas gigantes, essa
hidra, essa sila e bestas mitológicas todas que se puder imaginar, esses irmãos
que não servem mais e que atiram ao mar, esse mar, os rios mais caudalosos que
chegam a ele, o fremir dos corpos que caem estrebuchando transpassados por fio
de espada, as velas que sobem pra descer, as ondas que descem num impulso de
jogar outras mais altas vai toda a embarcação levando o inferno por sobre as
ondas com seus diabos e capatazes em perfeita harmonia, o primeiro empunhando chicotes,
o segundo tridentes; é, é então quando toca em si feito uma dessas ondas
gigantes, ou um raio atravessando um ribombar de trovão atravessando um céu
atravessando um vendaval que lhe toca um choque depois de transpassar sua
compreensão que aqui é quando se toca o destino, quando todo destino morreu e
se segue enredado nesse inescapável sem outro voo possível e a morte, bem viva,
vai singrando, em tom lento de vaga na cabeça anestesiada e toda a peleja lhe
parece uma abstração antiga, antiga... toca então pesado a água aquele corpo leproso
com suas chagas purulentas abertas que outrora fora atirado ao mar, quandentão
esse guerreiro descobre seu espólio no que caem as pálpebras, os músculos
esmorecem e mal sente na galé nova frincha sendo aberta em suas costas... ah!, seu
espólio?, ser mouro na vida.


A. do Carvalho...
...em 29 de dezembro de 2011


(Storm, ou Tempestade)
para Ricardo Bernardini


Ascendendo... (ao chão)


Ora, deixa tua bagagem, desvencilha-te e corre, rasga essas asas das tuas costas e voa, mas vai pelo chão de terra firme, mantém tuas pernas secas de modo a ganhar velocidade, logo, atingirás tal grau de abstração ao ponto do sol se tornar azul, daquele jeito perpetuamente fincado num céu dourado que nem Josué com seu deus poderá alterá-lo outra vez, tudo te anunciará um novo dia, um dia bom, num verão também novo, também bom, com a metade de dentro da vida se encontrando, sabe?, com a metade da vida de fora, num comércio preto no branco, numa nova relação, harmonias, numa confiança – até quem sabe numa fé – de que as coisas poderão por si mesmo se sustentar e seguir dentro dessa atmosfera assim toda nova, toda estranha, toda boa, segue cortando o mundo como um raio, uma linha limite, o dia tênue que separa uma estação da outra, vê, não repara o borrão, o mofo, a decrepitude que vai se tornando o mundo quando você ascende as alturas, tenta se erguer só contigo mesmo, com a tua confiança a não ser que os que vão ao teu lado não tentem te atrair pra fora do que tu está sendo neste momento, aprende a dormir com os olhos abertos sem que no sono eles percam o viço, o vigor, a força deste teu olhar que tu andas olhando de modo que nenhuma mão ouse se erguer contra ti e certifica-te, sempre, de não ter subido os montes tão alto na tua desvairada alto-estima e fome, desejo de alcançar os céus mais etéreos, que lá em cima o ar é rarefeito, há vulcões que não esperarão mais cem anos pra te queimar, deuses pra te torrar, gregos e romanos despudorados que não  hesitarão em fazer da tua graça alcançada um alto de Taigeto ou Tarpeia de onde te possam empurrar, e, como há muito se é sabido, o céu é imensamente pequeno, eis o motivo que leva os anjos a escorregarem sempre antes de todas as outras criaturas celestiais; e quando caíres – que tu hás de cair – as asas que te impediam de voar te farão falta, faltará contigo a tua fé pelo simples novo motivo de tê-la tido em demasia e quando te arrancares da queda o chão, a morte – que alguém disse em algum lugar que não a queda, mas a súbita parada é que mata – certifica-te de – como numa crença de amenizar os fatos – parar com a cara voltada para as estrelas como decretou Prometeu, que nenhum outro deus vai fazer de ti um jacinto, que a Luz Matutina é agora – e para sempre será –  escuridão e mal augúrio.



A. do Carvalho...

...em 12 de dezembro de 2011

Para Wasil Sacharuk, pelo incentivo à poesia e pela edificante amizade.

Retorno... (aos destroços de minha carne)

Carrego esta estada, este tesouro nas mãos com delicadeza que não é minha, não é própria, o medo me conduz feito os pólos que atraem a ponta das bússolas todas, e o chão que conduz a queda das maçãs, da areia na ampulheta, um medo de se fazer que se faça devagar todas as coisas que se faz nos limites de uma vida, um medo de entronizar aquele que o carrega, se lhe fazendo rezas: “devagar”, “atenção” me mantendo atento a evitar o possível susto, o provável espanto, a irremediável inquebrantável dor; caminho, corro, vôo, trajeto-me, faço-me luz ao ponto de mostrar-me somente em sombras, mas o que é meu é em mim, trago nos bolsos, nos orifícios todos, na epiderme, na cor dos ossos, no refluir do sangue o aviso prévio – quando todo salvo-conduto se rasga – de que inexoravelmente haverá susto, espanto & dor, e, irremediável, inexorável e incompreensivelmente o inquebrantável quebrará meu tesouro, a minha estada, então é quando dor afoga o peito, transpassa à lança a garganta, quando a cautela ainda sobrevive no pó, o pulso desafiando as leis físicas cai pra cima, de encontro à navalha que sem preâmbulos o lamberá; quando todo vômito acompanhado de seus urros guturais fazem o trajeto contrário garganta adentro enchendo núcleos e os estourando em milhões de estrelinhas podres, reduzindo-me ao universo só meu, de onde saí sem que saída houvesse e para onde retorno sem que frestas encontre, aos totais destroços da minha carne.


A. do Carvalho...
...em 29 de novembro de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sozinha...

(ao som de Cala a boca, Bárbara – Chico Buarque)


E por vezes fumo cigarros quando os suspiros se tornam irremediáveis, quando o pulmão se aperta, a fumaça deixa meu corpo e encontra o vidro da porta, numa explosão se dissipa em formas reconhecíveis somente para mim, nessas horas geralmente há chuva, gotas do outro lado do vidrado que escorrem num rumo definido em direção ao chão, é então que apertando os olhos no meio do fumo que enche o vão, penso num dia bonito, quente de verão, com um calor nos corpos; sinto mesmo vontade de sair, mas como quem dá o primeiro passo em falso e cai num ridículo de quase cair diante de muitos olhos me retraio; é só que sinto muito medo, medo do que pode advir de meu caminhar por aí, medo de mudar as estrelas de sua devida posição em uma constelação, esbarrar ombros em outros ombros e seguir deixando vazios, dos cursos dos rios alterados porque eu coloquei o pé na rua, da cachoeira esquecer que rumo tomar; irracional?, acho que muito provavelmente talvez com certeza, mas eu sei que entendes, que palavras são só símbolos e os símbolos não são as coisas que supõe-se que são quando olhados, então isso é medo, isso é desorientação, é não saber a maneira correta de pisar o mundo ou só o chão, feito sair pra comprar salsichas e não saber como fazer o pedido ao taberneiro ou como estender o dinheiro, nós saberíamos se precisássemos de ovos, mas salsichas não, não é verdade? é ter a língua sempre dentro de um dialeto desconhecido, então fico aqui numa dor de não ter amor, numa dor de não ter remédio, numa certa compreensão já feita de que se houvesse amor ele não curaria, nem remédio remediaria e é quando meus olhos tocam o chão acompanhando as derradeiras gotas de chuva que deslizam pelo vidro, que me toca uma presença, feito viesse de longe e a partir de determinada distância os olhos entendessem as formas, eu entendo, nesse momento, que entendo de meus abismos e das coisas que sobem se batendo por seus corredores e num segundo dentro de um vestígio solto a ponta de cigarro e antes que ela toque o chão terei aberto a porta da rua, dado as costas a ela e entrado no quarto e me justificado: eu não posso sair, meu amor, sinto medo sei que tu vens, porque tu conheces os meus caminhos, meus meios, abro as portas pra você que sempre vens e talvez venhas porque sinto medo, de ver o sol, as nuvens que passam, mais me valeria que trezentos valentes entrassem pela minha porta e me flagrassem nua, mas eu sei que tu vens e meperdoe sete tuteio é só que não sei te tratar senão assim, eu não sei mentir só sei é de ter medos, dessas verdades que se cantam por aí em voz mansa de forma que se pareça mentira, “dizem que o mar vai virar sertão” e no fim eu não sei qual a mentira ou a verdade nas palavras, nas tonalidades, fico agastada e cansada, ora, pois ergue a pálpebra sobre os olhos do teu morto e mente pra si mesmo que tem luz neles, se podes, masnãotedesviesdemimmeubem tu me conheces e eu sou a única que te conhece, não te detenhas diante das tuas colunas, dos teus mármores, das cortinas, das tuas entradas, o templo é teu, meu imperador, tu conheces meus caminhos, as minhas entradas, te espero de braços abertos, adentra os prados que tu conhece tão completamente, toma na mão teus prados, sente o orvalho, o sabor e o aroma da noite, se vieres vou te fazer um laço a princípio, quando adentrares tuas colunas, quando sentires os toques dos teus deuses, em seguida te darei um nó tão apertado com meu corpo de modo que vamos nos fundir em uma única carne, e quando levantares para me deixar me deixarás carregando-me contigo, eu serei a marca intratável de ferrugem nos teus ferros, o teu ferro em brasa que virá pra marcar a tua escrava e não deixará essa minha carne sem levar nele minha própria marca, sem que se deteriore sem mim... pensarás que estou me abrindo para você, mas em verdade te estarei fechando em mim, na incineração total dos corpos, que queima, inflama tentando se ajustar a melhor posição sem parar nunca de arder, o beijo em transição, que encontra o seio de infinitas maneiras e não para nunca de procurar outras, melhores, enquanto meus óleos contribuem pra essa tua busca da perfeição sem avisar que essa perfeição, esse cume, ele está neste escorrego, nessa procura, nessa febre, nos nossos prados, celestes, queimando no fogo do diabo até que uma espécie de loucura aconteça, que sempre acontece, uma brancura na cabeça, uma claridão tomando conta do quarto quando enfim esquecemos o outro e nos voltamos somente pro nosso próprio prazer, nossos próprios rios, pressa contração feito metessem argamassa na gente, nos nossos meios, te aperto e sei que aquele nó encontrará sua completude neste momento, quando lá no meio das matas a mais escondida e mais frágil forma de vida se retrai e explode de alguma maneira oculta, nesse momento o laço se desfaz, voa uma borboleta em direção ao seu último instante, abro os olhos e me encontro num caos horrível, numa confusão que não se sabe onde se principia nem até onde se estende, e eu, sozinha, estendida completamente nua... murcha... os mármores tombados, os rios e as relvas secas e os seios como um céu de circo no chão, com todos seus sonhos e esperanças caídas no pó.

A. do Carvalho...
...em 26 de agosto de 2011

Linhas...