terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

E se a vida fosse só aplausos?...

E se a vida fosse só aplausos?

Eu ia correr, deusdocéu!, como eu ia correr, com força espremer a ponta do cigarro recém aceso contra o cinzeiro e sair pela porta, me metendo até as bolas a essa vida que é assim só aplausos, dançar e dançar como um esquizofrênico epiléptico é o que eu faria agora naquele momento, com muita rapidez, muita rapidez que é porque a vida é só aplausos nesse momento e eu quero pegar ela toda e eu quero viver com gestos dentro desse momento pelo menos o dobro do que vivi nessoutra vida que vim vindo sendo até aqui, que não tinha nada de aplausos nela, mas nessa de agora que tá acontecendo aqui tem e eu vou sambar, vou frevar a sombrinha por debaixo das calças porque, deus!, é só alegria e eu quero sorrir, aqui, agora, hoje, nesse minuto, antes que acabe não tire de mim esse riso, essa dança, que essa é toda minha ilusão e minha vida; essa vida que é só assim, em aplausos.


A. do Carvalho

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Esse silêncio...

Então é por isso?, que se torna tão importante e inadiável abrir as palavras como braços que se abrem para apartar, para apartar o silêncio. Ser perspicaz e desesperado o suficiente para identificar o silêncio num vão de quarto ou no aberto duma praia e formar ao redor dessa inanição das palavras palavras que cubram essa ausência de coisas não ditas, palavras que lancem sombras sobre esses... esses silêncios.

Então é por isto?...
Mas que é esse isto, em nome dos deuses?...
Suposições, memórias, invenções ou poesias?

Há quem ainda diga, que por dentro de nós passam rios, ou ainda que somos, nós, rios que seguem não sei eu pronde...

Fecho os olhos e sinto minhas pernas tremer, como se submersas por água corrente elas tentam e só tentam andar. Pergunto em súplica aos deuses - se algo ainda resta deles - ou a mim mesmo ou a qualquer coisa que se me escute dentro de mim o porque do sangue que jorra de mim por cima da carne imaculada, o porque do pus sem chaga, sem corte. Minhas cicatrizes não estão todas fechadas?

E por que é?, do sangue que derramo de Outro's sem que a mão erga, ou a voz, ou... eu nem tenho voz.
Será mesmo isso?, a ausência das palavras, dos atos, de um sentar e de um deitar, será o revés de um grito que se faz curvar abatido aqueles que quero eretos e iguais diante de mim?

Fecho os olhos dentro de mim imaginando, enquanto faço caladas perguntas, onde é que a luz - seus derivados - nasce, onde dorme e onde acorda.
Onde e como e por que e para quê faiscam as coisas. Tento encontrar, num momento em que trago um sol pro pensamento, o momento exato em que a luz de uma sombra se faz caindo por detrás de uma árvore... e tento entendê-la. Tento não mais desesperado, mas simplesmente cálido, pouco impassível - que é preciso dessa serenidade pra isso - olhar de um só e único tempo a árvore e a sombra, enquanto jogo pra fora de mim e dessa paisagem, todo o vento, a mais ínfima centelha de vento; quero a árvore parada, quero sentir o movimento desse sol e observar, pois-como-preciso, vida, encontrar algo no movimento quase imperceptível da sombra sem o balanço da árvore, porque tudo isso "faço" tentando alcançar o primeiro golpe, o primeiro virar de costas, ando agachado de dentro do dentro de mim: duas vezes dentro, procurando aos tateios pela fonte de onde surgiu e ebuliu o sangue primeiro.

Saio de tão fundo e fico somente dentro de mim, com aquelas águas atravessando minha cintura, vindo não sei de que lugar, indo não sei pra que lugar, dentro de mim abro olhos e me pego consciente agora, naquele pensamento primeiro, Então é isso?, é inerente?

Mas onde nascem os silêncios?
Besteira, pode ser que seja mesmo! inerente.
Mas onde nasce?...

Tragam-me, rios, ou traga-me. Só não me deixe outro dia sem respostas.
De quantos irmãos a garganta cortei e quantos foram os corpos que afundei no Tigre ou no Eufrates: dependendo de qual estivesse a menos passos de distância? Quantos foram os rostos de iguais que afoguei no Nilo enquanto membros se debatiam como as palavras de dentro de mim se debatem chorosas precisando sair sem que na maioria das vezes eu dê por elas até se calarem esses membros e eu os reconhecer finalmente como semelhantes do meu silêncio... só até senti-lo de novo como um grito em suspenso que voltará aos ouvidos do mundo... senão nessa noite, na outra, ou na outra até atravessar as vidas?

Cobrir o silêncio pelo lado de dentro cansa em demasia...
Estirar panos sob o silêncio...

Começo a abrir os olhos antes de começar a me afogar e como quem vê, escuta e sente de relance, vejo, escuto e sinto portentos babilônicos, como uma lâmina erguida em nome de Marduk, como um rio de sangue que corre caudaloso onde deuses sanguinolentos se saciam da sede tão quimeramente herdada por nós, então volto a fechar os olhos como quem ergue a palma de uma mão pra apanhar algo, como quem mergulha pra dentro de si, pra dentro de um rio de correntes poseidônicas e com urgência vou ao fundo como quem vai a procura de um ente, de uma amada, mas não tem mais nada aqui e isso tampouco é o rio caudaloso que pensei, estou no meio do oceano, no fundo sem fundo do silêncio inextinguível do oceano.


A. do Carvalho...
...em 31 de janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Veraneando

Ao poucos criei comigo, cultivei mesmo sem querer, certa impassibilidade. Totalmente impassível, sabe? Assim meio parecido com esse negócio que escorre de detrás das coisas quando o sol bate na sua frente ou que escorre da frente se o sol bate nas costas, entende?, como uma sombra. É, uma sombra... que nada procura.

Nem lembro quanto tempo faz, criei um estado escuro, pouco úmido a minha volta. Nele me faço ou me cuido enquanto estou doente, só fico, que é meio preguiçoso nele. Tento me salvar, vezes que penso que a febre não vai passar e o inerte dos membros vão permanecer, desvairado até coloco desvario no pensamento de que o sol vai correr, vai sair do lugar, vai pra frente, vai pra trás, não terá sempre sombra e não será preguiçoso sempre aqui e pensar que não será preguiçoso sempre me inquieta, então tento correr pra fora do estado, levanto-me com os pés e com as mãos, mexo rápido as pernas pra me tirar daqui correndo, mas é úmido, escorrego, perco o chão, fico no ar um pouco espasmódico e! é, caio um pouco desengonçado, meio dentro de um ridículo.

Penso as vezes que tá tudo bem, que não depende de mim ir pro sol e que talvez ele, o sol, é quem escolhe pra quem nasce quadrado dizendo nessas palavras, assim. E é aí, nesse instante exato em que começo a pensar que encontro um socorro - usando essas palavras assim tão dramáticas, se bem que drama lembra tragédia e tragédia me lembra as satíricas em que se chora nela toda pra rir no fim ou o contrário, não lembro bem, mas vê -, encontro um socorro. Por um momento fecho os olhos e me esforço, me esforço de verdade como numa jaula humana onde sua unica grade ou comogol está alta demais e num esforço fico na ponta do pé pra sentir o sol na cabeça que assim é mais fácil pensar certas coisas.

E eu penso em você e quando eu penso em você eu pego um momento e não importa a data e não importa que horas são nem se é noite ou dia útil e nem menos pouco importa se é tarde lenta de domingo ou uma segunda fodida de muito trabalho sobre a mesa porque quando eu penso em você eu sinto na minha cara uma passagem como de estação e se o sol não cobre por completo a essa cara seca e rasgada coloco nela um pensamento de sombra de folha de outono que amarela e seca e voa numa brisa vindo de sei lá donde se do Olimpo ou de algo bonito como o revés de um caralho o revés de um palavrão bem feio porque digo palavrões se algo que devia ser bonito me atrapalha e o vento frio de inverno vem e por um momento uma nuvem que como uma esponja absorve o sol da minha dor aparece pra sumi-la e é nesse momento que escorre sangue e a armadura enferruja e cede sobre meu corpo criando frestas por onde umaquela preguiça começa a se esgueirar por dentro de mim como ursos e musaranhos e ouriços e esquilos e marmotas e morcegos querendo hibernar ou hibernar-me mas eu penso em uma força bem muito forte e penso que é minha essa força e coloco toda em você ou no pensamento meu de você a fim de criar uma luz clara e grossa e iluminar com essa luz clara e grossa alguma coisa que já é ou está ou ainda está ficando escura e me enchendo de sabe-se bem o quê então e só então que desesperado penso primaveras eu penso equinócios primaveris bem de com muita força e faço o equinócio passar pra que os dias sejam mais longos e as noites mais curtas e os dias mais longos e as noites curtas e é quando eu chego ou o meu pensamento que vinha indo a você meio esforçado te chega e você ou tu - e penso até um nós - refloresces como um toque refloresce de um tateio e uma luz de uma sombra igual uma morte de uma vida e vezes uma vida de uma morte e então quando isso acontece eu já estou perdido entre a primavera e o verão e o que saiu do meu pensamento de ti - e me perdoe te chamar já assim de ti mas estou tão perdido e é tão bom - e o que refloresceu do meu pensamento de ti são coisas inenarráveis ou inomináveis ou tudo junto não sei mais mas parece que Deus deixa de estar morto e varre e sopra pra longe tudo junto como umidades-folhas-nuvens-preguiças-etcs e então chove uma chuva totalmente enxuta porque agora irremediavelmente meu pensamento toca você...

...e a verdade é que quando eu penso em você eu pego um momento e não importa a data nem as horas nem quando porque quando eu penso em você é sempre Verão.



A. do Carvalho...
 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A realidade da aparência...


“Que a verdade valha mais que a aparência não passa de um preconceito moral.”
                                                                                                     Além do bem e do mal, F. NIETZSCHE


Quem foi que disse?
...que a verdade, indobrável e inflexível é! mais importante que a aparência.

A essencialidade da aparência...
...que caminha em lentidão, na contagem de passos, entre variantes mosaicos multicores que derramam a ela o melhor do que do Sol é filtrado.

Até quão certo ponto?,
A verdade é verdade e a aparência é simples vasilhame oco.

Imagine Utopia de Thomas Morus e a filosofia de Platão. Onde é?, que a verdade toca a vida.

Em que empirismo?, o que é certo foi bom de se tocar ou agradável de contemplar.
Em que metafísica?, se foi possível notá-la de outro modo que não somente como de coisa meramente provável.


Em que mundo?, se nos deixam viver sem a aparência.

 

A. do Carvalho...
 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Longe...

Ao som de Longe, Arnaldo Antunes

Subo tranquilamente a escada entre o segundo e o terceiro andar e me dirijo ao terraço do terceiro. Quando apesar do céu sempre limpo, descoberto, em constante nudez dessa cidade se mostra para mim, noto, sem realmente ver, uma grande misturada nuvem se aproximando, feito um fumo de memória que me cobre por inteiro e entra todo nos meus olhos. Então acendo um cigarro e nele me apoio que é pra procurar sentir ao menos alguma coisa que precede a nitidez do gosto desse momento; que é pra ele, esse fumo que trago pros pulmões me segure ao menos em parte a esse momento presente. Que em parte, não ‘stou mais nele.

É por aqui ainda, que olho para os muitos - novos para mim - arranha-céus diante de mim: apartamentos, empresas, comércios, bibliotecas públicas, agências bancárias, as muitas catedrais estocando o céu; a arquitetura clássica conservada, em sua maioria no estilo barroco, prédios antigos, o bairro é Antigo. Lá em baixo se vê um pedacinho da Rua da Moeda cortando um vão entre mais prédios e, nesse pedaço de rua, a estátua colorida de Chico Science sobre a coluna também multicor, em sua inerte imortal pose de caranguejo, feito como se quisesse dizer algo que encontrou naquela pose; coisas essas de segredos. Por tudo isso e bem mais atravessa meu olhar e num resquício de memória, penso mitologias; penso que isso tudo que se faz é feito o olhar de Juno correndo pelo peso daquelas nuvens do dia em que Jove encantou-se com a bela filha do rio-deus Ínaco.

Tudo breve, não tenho muito tempo e compreendo agora que algo em mim está programado pra compreender, ali, naquele lugar entre momentos.

Ato contínuo, é quando o cigarro é só ponta que escuto os telefonemas na minha cabeça lá em baixo tocando de novo. E preciso voltar aos precisares do Brasil. Pois que todos os dias pessoas morrem, sofrem acidentes, ficam doentes, envelhecem e não morrem, morrem sem nem envelhecer, nascem deficientes, se invalidam e ficam à margem, mas ficam. Como o único copo da casa que não se pode jogar fora.

E, sem conseguir realmente ficar no momento presente, é só quando pego o telefone no Segundo que percebo de onde realmente voltei. Daquele lugar lá de dentro da gente, de onde saí a uma gestação atrás. Mas esse Onde, tenho certeza, jamais sairá de dentro de mim. Porque nas minhas terras tem palmeiras, onde nascem os sabiás. Por conseguinte, canções...

Em um segundo me desequilibro e noto breve, mas com tanta intensidade, onde estou, que até percebo meu próprio sorriso. E sinto pena dos velhos, dos deficientes, das mães, dos dependentes de mortos e de reclusos ao perceber que sou parte de uma Previdência.

Sinto vontade de outro cigarro, mas é proibido fumar.




A. do Carvalho...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Sob o Nilo Estrelado...



No balançar cadenciado do silêncio da noite eu observo. Tem tédio, ou qualquer coisa inominável, aqui, que escorre do cérebro esquizofrênico pra carne e transforma a Coisa Essa, abstrata, em dor física.
E os astros no céu, eles eu não vejo sair do lugar, como se essa Dor Essa me pregasse ao mundo - com toda a abóbada estrelada -, com um imenso punhal que transpassasse a nós dois, logo o mundo e eu estamos pregados imóveis ao firmamento outrora impalpável.
De um pensamento, a matrona mente cansada pergunta ao escasso corpo se este não se cansa, mas os céus, ele é tão bonito que até dói olhar: Tá frio aqui fora, digo-me em voz alta a me abraçar, mas é melhor do que deitar e ter de pensar meus sonhos exilados, pois esses, nunca vêm. Quer isso?, me pergunta o corpo meu.
Cadê o Demônio Aquele? O Papão, a Coisa, que surge quando de nossa inconsciência e repouso e conta sonhos em nossos ouvidos? O que sou quando durmo se não me encontro em lugar algum?
Vejo agora seus serenos olhos frios a me fitar – seu rosto na lua.
Tudo muda, tudo voa... é até possível sentir um perfume balanceado no ar, e, totalmente perdido nos louros de teus cabelos, finalmente encontrar-me, além do véu, sonhando, caminhando por entre amarelos prados trigais, que surgem com o recolher do Nilo Estrelado.
Tem vida no Nilo meu.


A. do Carvalho
...em 29 de janeiro de 2010

Linhas...