terça-feira, 11 de setembro de 2012

A peste



A peste
(entendimento latino-americano)


"O mundo, para mim, é o mundo, apenas:
um palco em que representamos,
todos nós, um papel, sendo o meu triste."
- W. SHAKESPEARE in "O mercador de Veneza", Ato I, Cena I


Feito a grande puta, batia o ponto e voltava para casa no fim da tarde, caía na cama e diria-se que todas as cortinas do mundo, cerradas pela sua mão de uma passada, abaixo e acima desse seu peso, contribuíam: era o fim do espetáculo, e repetia como num mantra - sabia o que era um mantra: é o fim do espetáculo, é o fim do espetáculo, é o fim do espetáculo erofindospetáculo... ...pois era um espetáculo aquilo, e um daqueles inesperáveis, intoleráveis, ali, no centro do mundo, no imenso palco mundano, a platéia cheia, o palco entupido de atores, e coisas, e roupas, e caracterizações e esboços de sentimentos total e - pra fixar, se é que algo ali pudesse se tornar mais fixo - inteiramente parados, fixos!, "inertes", ela pensava muito sem querer; nada acontecia; voltando do trabalho ela dormia, o despertador tocava e como a atriz da trágica peça que não terminava nunca, ela tinha de voltar à cena, era sua hora, ao papel da grande frustradíssima santa. Levantava, num outro dia com alguma energia nos braços, e, quando pensava isso seus lábios desgovernados, sua língua perdida e incalma, sua cabeça que não sabia de onde tirava essas coisas soltavam complementares: "E, no entanto, meus braços não me pertencem" e assim começava o dia, com essa frase que, sendo só uma frase não sentia a necessidade de vasculhar a memória pra saber quando começou a dizê-la assim tão apocalípticamente, não percebia que entregava a sua vida à selvageria dos dias citando um dos poetas de verdade que seu país teve um dia, um dos poetas que a enxergavam, um seu igual, e não percebia a poesia naquilo; sua vida era trabalhar e dormir para trabalhar - pouco depois do ponto da saída nada havia.

Não era de dançar, nem por aí nem dentro da casa sempre fechada que alugava pra dormir, não era de passar noite em claro, nem cantar cantava, não tinha tempo pra música, mas conservava - na face, no jeito de dirigir o olhar, de carregar a bolsa na mão, nos ombros derretidos e até - e apesar - no jeito elegante de caminhar fabricado por saltos altos, finos, agudos que conferiam uma onda ao quadril - uma expressão de mulher sambada. Diriam transeuntes, colegas de trajeto, ou um pedestre que a via no ônibus que passava, um de seus vizinhos varejistas, o caixa da lotérica em que fazia o depósito de seu aluguel, diria que era bonita, não fosse tão difícil: era uma dessas pessoas difíceis de olhar e entender a beleza, feito uma ideia da Ilustração, um quadro do Renascimento, ou de épocas e estilos em que a beleza da obra se constrói mais por quem olha do que por quem pinta, logo era preciso empreendimento, disposição por parte do expectador; ela tinha aqueles olhos de vidraça embaçada, tinha uns traços quebrados na cara, sofria do grande cansaço dava para ver; sua beleza pedia tempo e sacrifício do observador para se mostrar, era preciso interpretá-la, encontrar as conexões de seus traços e conectá-los, quebrar a moldura, aquela mulher era um desses difíceis poemas modernos somado às impossíveis composições poéticas de Heráclito de Éfeso, o Obscuro - e apesar disso sua profissão exigia beleza & graça.

Livros tentara ler alguns no ônibus a caminho do trabalho (no trajeto contrário era impossível...), certa vez encontrou no meio de umas tantas coisas perdidas um livro de contos provavelmente esquecido por um de seus breves namoros, pensou que fosse só um livrinho desses que qualquer garota pode ler, mas aquele era difícil, Morangos mofados de Caio F. não lhe fazia o menor sentido, desistiu, aquele tal Caio, aquele veado, falava umas coisas que por natureza ela não conseguia entender (fosse o oposto...) como quando em determinada história que tinha lá, determinado conto, um personagem e outro vinha sentindo assim que apesar do constante movimento próprio e do mundo, algo dentro deles continuava para sempre parado, adormecido, em torpor e aquilo soava a ela como se dito num dialeto indominável, que usa de antonímias para representar as coisas, pois que ela sentia exatamente o contrário, a vida era exatamente o oposto: tirava os olhos do livro e voltava ao ônibus, sentada imóvel ali no seu assento, pessoas em pé, escoradas, lá fora a cidade com suas árvores e edifícios e pontes e cachorros e cores como um borrão intermitente que aparece e some e reaparece um pouco mais atrás, sem movimento, fixidades - um desses retratos urbanos - e se fechava os olhos sentia uma luz muito ondulante no vácuo pouco dentro de suas pálpebras, uma luz que tremeluzia ali jogada de um lugar mais fundo dentro de si: apesar da inanição do mundo parecia sempre que uma biblioteca queimava dentro dela jogando luz e sombra no forro cavernoso de dentro do seu corpo, parecia sempre que um terremoto balançava a terra que corria dentro dela como se as muralhas de Tróia estivessem há milênios tombando, daí depois que abria os olhos sem perceber, sobressaltava-se pensando que ia queimar alguém, mas fora havia o mundo, havia o sol, havia a vida incessantemente cessada. Fria. Deixou o livro no banco do ônibus.

Não era muito inteligente, mas era vivida o que contribuiu para deixar muito intelectual no chinelo, mesmo que se mantivesse quase sempre só consigo mesma e quando ouvia algo que lhe desagradava passava a desfiar seus argumentos contrários para dentro de si, muda, introspectiva. Usava expressões frasais que, nunca ninguém lhe contando nunca viria a saber que citava grandes e renomados malditos: poetas, filósofos, dramaturgos, comunistas, santos, meretrizes de luxo e fazia assim sem saber e por não saber sem pretensões - não tinha pretensões, nunca teve -, com naturalidade, o que lhe "rendeu" mais de um amante entre aqueles  mesmos intelectuais (mas isso faz tempo, antes, quando do amor, antes de seus seios esfriarem e amolecerem para todo o sempre, quando aquele fogo de dentro ainda podia ser controlado, e modificado, direcionado até, quando seu corpo ainda entendia o comércio dos homens) que não duraram muito afinal. Trabalhava numa das mais bem sucedidas obras da arquitetura de sua cidade ("da América Latina!", diziam), ora, mas que contradição, acontece que, bem ali, à margem dessa pomposa construção, alguns - poucos - quarteirões do trabalho tinha de atravessar uma terrível (terrível não, triste) e asquerosa favela, daquelas tradicionais, casas de palafita, lama, verdes-musgos, fome, vício, cabelos desgrenhados, por sobre peitos esqueléticos as barrigas crescidas por todos os motivos da América Latina; todas essas coisas misturadas, criando um bolo, fermento incontido e ela, ela só olhava, aquela favela construída com crianças feias nos braços de outras crianças devassadas na calçada; passava no ônibus, olhava e acontecia o efeito retrato, em sépia, dessa gente que já morreu. A passada não durava mais que alguns segundos e era tempo dela adivinhar, nuvem invisível de átomos espalhados pelo ar, descolados do corpo daqueles meninos e meninas: o cheiro de sexo misturado com as dores da pedra. Sentia aquele barulho dentro de si e sem saber que palavras pensar apenas se mexia no banco, se empertigava um pouco enquanto abria espaço no meio do fogo de dentro para aquela compreensão muda que crescia dentro dela, uma compreensão desprovida de palavras. No trabalho, ouvisse comentários sobre questões semelhantes, não comentava os comentários, dizia simplesmente daquele mesmo jeito de antes: "A vida como ela é" sem olhar as colegas nos olhos, sem ouvir as senhoras que passavam comentando as vitrines, indefinível o que ela olhava ou via, o que se passava dentro daquele basculante embaçado, abandonado que eram as suas retinas, ali, estática, quase confundida entre os manequins sem cabeça, como prescreve a nova moda.

Segunda-feira, o único dia em que o despertador desperta só para cumprir com o ritual da semana, como um objeto que não pode deixar de voltar à cena da filmagem quando se tem de voltar à filmagem, à cena, depois das irrefreáveis dolorosas pausas: ela já estava acordada - dormiu o domingo inteiro -, mas sentia-se estranha, quando o aparelho tocou, embora já se encontrasse sentada na beira da cama fora arrancada violentamente de uma espécie de torpor, de um limiar, sentiu um vento fraco que não podia ter vindo de lugar nenhum, como se algo grande passasse muito perto, abanando, olhou para trás, depois prum lado e pro outro mas se algo havia a música do rádio-relógio levou embora. Naquele dia ela chegou cedo nas imediações do trabalho, desceu pelos lados da favela e andou um pouco; estava pensativa; seus olhos que geralmente passavam esfregando as coisas da vida nesse começo de dia nada refletiam, estava inquieta, não era de inquietar-se assim, príncipes troianos caiam, papiros queimavam no que ela caminhava e ela suplicava por alguma ordem e no que pensou assim, "ordem", aconteceu: acostumada com esses príncipes para sempre caindo, os rolos e rolos de palimpsestos inflamando eternamente, espantou-se quando perto da entrada do trabalho sentiu como que um corpo alcançando o chão - os corpos nunca o alcançavam, o fogo nunca cessava - passou os olhos e não encontrou nada, sentiu uma sombra, um sopro outra vez, aquela brisa, mas quando voltou parte do corpo e procurou só encontrou o sol ali, suspenso e maiúsculo, quente, ele era a negação de tudo o que sentira no repositório daquele instante. Encarou o dia lá fora alguns segundos e entrou tentando abandonar aquelas metáforas absurdas, outro achado, desta vez herança inconveniente deixada por um quase namorado estudante de História.

Era cedo, caminhava ali dentro, devagar, olhando o chão lustroso tendo sido limpo pelos meninos na madrugada, ia de uma galeria a outra, dobrando esquinas brilhantes, passando pelas intermináveis vitrines, começou a olhar sem que as coisas que via passassem a furtar-lhe os pensamentos, sentia aquele algo se aproximando, mas não podia saber o que era, não podia alcançar, nem medir, não compreendia, as vitrines ficavam para trás e não sumiam de sua frente, era um labirinto refletivo aquele lugar, os azulejos negros em nada ficavam a dever àqueles cristais, parada entre uma parede de pedras negras perfeitamente polida e um  imenso espelho que pendia suspenso por fios de náilon, entre vários manequins sentiu uma espécia de vestígio, os minutos corriam e era quase hora de entrar, na pedra preta perfeitamente polida podia ver os reflexos adentrando-se um ao outro, o espelho detrás dela balançava, conferindo movimentos falsos aos manequins - alguns com cabeça - frívola e perfeitamente bem vestidos, num repente, numa viagem a minutos irremediavelmente próximos sua mente se abriu com a porta central deixando ganhar os corredores toda a futilidade do mundo carregadas naqueles milhares de passos, aquelas pessoas, numa segunda-feira de manhã, ali, de novo, e todos os dias, sentiu um peso tremendo, e, como se se encontrasse a milhares de metros dentro do oceano sentiu uma pressão insuportável lhe empurrar para fora da presença daqueles que aguardavam lá fora, para a superfície. Abriu os olhos, foi rápido, ainda estava diante da parede preta, a pressão sumira, tudo que restara era um balouço fino de vaga marinha e o desejo que até isso se fosse, olhou aquele paredão ali muito perto, flutuante, é ébano?, o que vem lá dentro?, que coisa é?, pensou, rezou em silêncio e, contradizendo os dias, as horas, o comércio das mãos, naquele dia ela quis entender que mortíferas abstrações tomavam o seu espírito e depois de um esforço excruciante entendeu daquele mesmo jeito sem palavras, respirando uma coisa mais fundo e soltando o ar e se soltando à vaga; daquele nada uma imagem, uma lembrança antiga brotou como um soco no meio dos seus seios mortos, o historiador, o das metáforas falava lá daqueles dias afogados pela memória tão pouco requisitada dela "Veio numa embarcação genovesa" e naquele mesmo instante ela terminou de afogar a lembrança com água e sal verbalizando o inverbalizável: "Saída da Crimeia...". Ela andou alguns passos, as portas correram para o lado, opostas, saiu, enfiando a mão no bolso traseiro da calça, puxou um maço amassado de cigarros, levou até os lábios com os quais puxou um deles pelo filtro amarelo, com a outra mão apertou o botão do isqueiro, queimou a ponta do cigarro e começou a chorar convulsiva.

Aquele dia não trabalhou, refez o caminho, voltou para casa, repetiu o mantra e dormiu.
No outro dia chegou na hora, não olhou as vitrines, trabalhou muito porque - compreendeu, deste vez com palavras, que era esse o jeito acertado - graças a Deus Marx estava certo: o trabalho aliena o homem. E aquilo era bom.


A. do Carvalho...
...em 11 de setembro de 2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

À não-morte...


E quando acordo, amor, jaz um vão do meu lado e nesse vão, um rastro e no rastro um signo, tudo sobre o resto espaçoso de cama do meu lado, espaço vão, conforto inútil, nesse instante mais me valeria um catre, tão escasso e impassível esse meu amontoado pouco de carne; ergo-me sonolento, com algum pesar, pesar que vai se esvaindo um pouco a cada novo pouco passo até o instante em que finda o derradeiro resquício de sono do corpo, nesse momento algum amargor quente, pelante de café forte tragado com certa imprudência de primeira vez já se faz notar, queimando meu peito depois de deixar um calor intenso na garganta depois de magoar com a mais pura ardência a minha língua que pouco atesta o fato de em mim haver um cérebro que vive alguma vida – essas vidas digressivas dos cérebros, querida –, porém, esse cheiro de café queimando, e que sempre foi o melhor do que de café há, de repente faz pouco sentido e tateio, tateio como se voltasse às primevas infâncias, tentando colocar algum sentido nas coisas e quando desiludido volto a mim, esses meus pés já ganharam a rua e na rua eu poderia dizer que cercado estou por um mundo, por um cotidiano em que reinam as probabilidades e todas as coisas prováveis que tomam seu lugar a todo instante no seio das coisas, e, nas coisas, entendo sociedades, famílias, casas ou um qualquer coração solitário; morro muitas vezes nos meus até aqui – entenda em nome de todos os deuses que meu espírito errante já assassinou – muitos dias, minha pequena, várias são as vezes em que meu pescoço se parte, num tropeço, num deslize, numa queda composta tal qual fruta madura de pé de árvore, lá meu pescoço quebrado; automóveis que passam distantes, distantes, lentos, lentos num rompante se me desvelam amassando meus ossos tão carentes, ali, a um passo a minha frente; aviões que concentram tudo quanto há de hermético em se resolver pousar na minha parca coluna pousam na minha parca coluna; num repente estou morto, amor, e, nessa minha solidão de quem não conta um amigo tenho os restos defuntos descobertos pelos odores os mais sepulcrais que desprendem-se do meu pós-corpo e viajam uma viagem de átomos nus, imperceptíveis senão pelos cheiros verdes, cheiros de morto, cheiro morto, que encontram seu lugar ao sol nas narinas dos passantes; mas tudo devaneios, querida; corro os dias invisível em mortes de certa forma tão intermitentes, tão em momentos suspensos como o mundo de tabaco, de nicotina – pra denominar de formas diferentes o mesmo veneno – em que mergulho todas as manhãs, que talvez minha própria Morte personificada já se movimente perdida num desses corredores em que me desfaço, erguendo minhas inúmeras cabeças sobre os inumeráveis pedaços de pescoço partido a procura daqueles olhos que provavelmente a fitariam com um brilho que só a ela é conferido, Digressões! Digressões!, digressões – o fato é que volto, como que no impasse da fantástica Estrela eu volto, seguindo-a, fazendo todo esse maldito, desventurado, mal-quisto, infeliz, desditoso, desgraçado, anatemático, infausto e até dantesco caminho contrário, por esse caminho inglório em que nem a maior brecha permite o mais frouxo olhar de Fortuna eu volto, amor, com, ainda, as colunetas de fumo me deixando as narinas e uma preguiça nos pulmões, com, ainda, um cheiro de álcool no corpo, entrando no quarto escuro como uma alcova, sento no meu lado da cama, liso, arrumado, um signo falando de um signo que este signo apagou, meus olhos se acostumam a escuridão e então, vejo tuas formas preenchendo os sinais que elas deixam pela manhã, tu, inteira e sublimemente adormecida, não dizes uma palavra, não me faz um gesto, pouco se move e não diz que me ama, mas é neste momento, tão concreto em estranha solidez que me deito do teu lado, sinto aquela sonolência quase angelical voltando aos olhos e aos membros, um torpor irremediável de tão bom, de estar de novo do teu lado que sou tomado mais uma vez, dessa a vez derradeira, pelo pensamento de morte: é que aqui, amor, nesta noite, eu sei que não vou morrer.


A. do Carvalho...
...em 01 de abril, 2012

sexta-feira, 30 de março de 2012


Impressionante a semelhança entre Zuzu Angel – estilista brasileira, figura de nosso passado recente que desencadeou uma verdadeira guerra contra a ditadura militar – e Antígona – personagem da tragédia grega de mesmo nome do dramaturgo grego Sófocles –, mulheres sem partidários que abalaram a sociedade de sua época ao se erguer contra a injustiça, contra seu ditador, e a favor de tudo quanto seu espírito apontava como justo. Zuzu Angel que ergueu a voz, matriarcal, ao gutural quando isso por si só naquela época ditatorial já era uma forma de selar o próprio suicídio, Antígona, mulher fraternal, filha de Édipo, que chorou, enterrou e honrou com exéquias a quem fora proibido a proteção de uma tumba, num momento em que nenhum homem ousou pisar nas leis do déspota, numa época muito anterior a de Aristóteles que as considerava – as mulheres – seres inquestionavelmente (e é questionável esse inquestionável) inferiores. Zuzu foi assassinada, Antígona não encontrou outra saída senão o suicídio e o único objetivo de ambas era: enterrar aquele que lhes era caro.
Segue minha homenagem às mulheres, não só a todos esses espíritos guerreiros de diferentes épocas trazidos a tona pela grandiosidade de mentes artísticas ou cravadas na realidade da História, mas a todas que simplesmente são no mundo, à sua natureza (superior, certo está) feminil e a tudo que há de sacro em vocês. Não duvidem nem por um momento que, apesar do dia, que é de vocês, a felicidade é toda nossa.
Belo (o) dia da mulher.
Segue “Angélica”, por Chico Buarque de Holanda

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O mouro...

É, e tão extensos foram os dias,
tão longas e furadas as horas – as passadas e as que ainda se arrastam – no mar,
que conserva no movimento, no trajeto, no percurso do corpo um incerto tom de
vaga, um impreciso balouço, somente o preciso para a não extinção total do
corpo que é, somente o suficiente para a infausta fragmentação parcial da
estrela perdida que vem sendo e vai sendo, singrando a procura do aberto das
coisas; é, e no seu avesso, onde se detém, sem que o saiba, o seu íntimo,
correm os corpos, correm as fontes, os cantos das sereias como promessas de uma
Shangrí-la em que no final só restará a ilusão da fuga, correm roedores, correm
ratos de todos os tamanhos a outra ponta da nau onde talvez e só talvez
encontrar um cantinho seco por alguns minutos e que sejam esses minutos
comaquelas extensas – ainda que torturantes – horas sem fundo; e, abarcando
esse desespero de ratos, essa fuga, esse tatear cego, as ondas gigantes, essa
hidra, essa sila e bestas mitológicas todas que se puder imaginar, esses irmãos
que não servem mais e que atiram ao mar, esse mar, os rios mais caudalosos que
chegam a ele, o fremir dos corpos que caem estrebuchando transpassados por fio
de espada, as velas que sobem pra descer, as ondas que descem num impulso de
jogar outras mais altas vai toda a embarcação levando o inferno por sobre as
ondas com seus diabos e capatazes em perfeita harmonia, o primeiro empunhando chicotes,
o segundo tridentes; é, é então quando toca em si feito uma dessas ondas
gigantes, ou um raio atravessando um ribombar de trovão atravessando um céu
atravessando um vendaval que lhe toca um choque depois de transpassar sua
compreensão que aqui é quando se toca o destino, quando todo destino morreu e
se segue enredado nesse inescapável sem outro voo possível e a morte, bem viva,
vai singrando, em tom lento de vaga na cabeça anestesiada e toda a peleja lhe
parece uma abstração antiga, antiga... toca então pesado a água aquele corpo leproso
com suas chagas purulentas abertas que outrora fora atirado ao mar, quandentão
esse guerreiro descobre seu espólio no que caem as pálpebras, os músculos
esmorecem e mal sente na galé nova frincha sendo aberta em suas costas... ah!, seu
espólio?, ser mouro na vida.


A. do Carvalho...
...em 29 de dezembro de 2011


(Storm, ou Tempestade)
para Ricardo Bernardini


Ascendendo... (ao chão)


Ora, deixa tua bagagem, desvencilha-te e corre, rasga essas asas das tuas costas e voa, mas vai pelo chão de terra firme, mantém tuas pernas secas de modo a ganhar velocidade, logo, atingirás tal grau de abstração ao ponto do sol se tornar azul, daquele jeito perpetuamente fincado num céu dourado que nem Josué com seu deus poderá alterá-lo outra vez, tudo te anunciará um novo dia, um dia bom, num verão também novo, também bom, com a metade de dentro da vida se encontrando, sabe?, com a metade da vida de fora, num comércio preto no branco, numa nova relação, harmonias, numa confiança – até quem sabe numa fé – de que as coisas poderão por si mesmo se sustentar e seguir dentro dessa atmosfera assim toda nova, toda estranha, toda boa, segue cortando o mundo como um raio, uma linha limite, o dia tênue que separa uma estação da outra, vê, não repara o borrão, o mofo, a decrepitude que vai se tornando o mundo quando você ascende as alturas, tenta se erguer só contigo mesmo, com a tua confiança a não ser que os que vão ao teu lado não tentem te atrair pra fora do que tu está sendo neste momento, aprende a dormir com os olhos abertos sem que no sono eles percam o viço, o vigor, a força deste teu olhar que tu andas olhando de modo que nenhuma mão ouse se erguer contra ti e certifica-te, sempre, de não ter subido os montes tão alto na tua desvairada alto-estima e fome, desejo de alcançar os céus mais etéreos, que lá em cima o ar é rarefeito, há vulcões que não esperarão mais cem anos pra te queimar, deuses pra te torrar, gregos e romanos despudorados que não  hesitarão em fazer da tua graça alcançada um alto de Taigeto ou Tarpeia de onde te possam empurrar, e, como há muito se é sabido, o céu é imensamente pequeno, eis o motivo que leva os anjos a escorregarem sempre antes de todas as outras criaturas celestiais; e quando caíres – que tu hás de cair – as asas que te impediam de voar te farão falta, faltará contigo a tua fé pelo simples novo motivo de tê-la tido em demasia e quando te arrancares da queda o chão, a morte – que alguém disse em algum lugar que não a queda, mas a súbita parada é que mata – certifica-te de – como numa crença de amenizar os fatos – parar com a cara voltada para as estrelas como decretou Prometeu, que nenhum outro deus vai fazer de ti um jacinto, que a Luz Matutina é agora – e para sempre será –  escuridão e mal augúrio.



A. do Carvalho...

...em 12 de dezembro de 2011

Para Wasil Sacharuk, pelo incentivo à poesia e pela edificante amizade.

Retorno... (aos destroços de minha carne)

Carrego esta estada, este tesouro nas mãos com delicadeza que não é minha, não é própria, o medo me conduz feito os pólos que atraem a ponta das bússolas todas, e o chão que conduz a queda das maçãs, da areia na ampulheta, um medo de se fazer que se faça devagar todas as coisas que se faz nos limites de uma vida, um medo de entronizar aquele que o carrega, se lhe fazendo rezas: “devagar”, “atenção” me mantendo atento a evitar o possível susto, o provável espanto, a irremediável inquebrantável dor; caminho, corro, vôo, trajeto-me, faço-me luz ao ponto de mostrar-me somente em sombras, mas o que é meu é em mim, trago nos bolsos, nos orifícios todos, na epiderme, na cor dos ossos, no refluir do sangue o aviso prévio – quando todo salvo-conduto se rasga – de que inexoravelmente haverá susto, espanto & dor, e, irremediável, inexorável e incompreensivelmente o inquebrantável quebrará meu tesouro, a minha estada, então é quando dor afoga o peito, transpassa à lança a garganta, quando a cautela ainda sobrevive no pó, o pulso desafiando as leis físicas cai pra cima, de encontro à navalha que sem preâmbulos o lamberá; quando todo vômito acompanhado de seus urros guturais fazem o trajeto contrário garganta adentro enchendo núcleos e os estourando em milhões de estrelinhas podres, reduzindo-me ao universo só meu, de onde saí sem que saída houvesse e para onde retorno sem que frestas encontre, aos totais destroços da minha carne.


A. do Carvalho...
...em 29 de novembro de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sozinha...

(ao som de Cala a boca, Bárbara – Chico Buarque)


E por vezes fumo cigarros quando os suspiros se tornam irremediáveis, quando o pulmão se aperta, a fumaça deixa meu corpo e encontra o vidro da porta, numa explosão se dissipa em formas reconhecíveis somente para mim, nessas horas geralmente há chuva, gotas do outro lado do vidrado que escorrem num rumo definido em direção ao chão, é então que apertando os olhos no meio do fumo que enche o vão, penso num dia bonito, quente de verão, com um calor nos corpos; sinto mesmo vontade de sair, mas como quem dá o primeiro passo em falso e cai num ridículo de quase cair diante de muitos olhos me retraio; é só que sinto muito medo, medo do que pode advir de meu caminhar por aí, medo de mudar as estrelas de sua devida posição em uma constelação, esbarrar ombros em outros ombros e seguir deixando vazios, dos cursos dos rios alterados porque eu coloquei o pé na rua, da cachoeira esquecer que rumo tomar; irracional?, acho que muito provavelmente talvez com certeza, mas eu sei que entendes, que palavras são só símbolos e os símbolos não são as coisas que supõe-se que são quando olhados, então isso é medo, isso é desorientação, é não saber a maneira correta de pisar o mundo ou só o chão, feito sair pra comprar salsichas e não saber como fazer o pedido ao taberneiro ou como estender o dinheiro, nós saberíamos se precisássemos de ovos, mas salsichas não, não é verdade? é ter a língua sempre dentro de um dialeto desconhecido, então fico aqui numa dor de não ter amor, numa dor de não ter remédio, numa certa compreensão já feita de que se houvesse amor ele não curaria, nem remédio remediaria e é quando meus olhos tocam o chão acompanhando as derradeiras gotas de chuva que deslizam pelo vidro, que me toca uma presença, feito viesse de longe e a partir de determinada distância os olhos entendessem as formas, eu entendo, nesse momento, que entendo de meus abismos e das coisas que sobem se batendo por seus corredores e num segundo dentro de um vestígio solto a ponta de cigarro e antes que ela toque o chão terei aberto a porta da rua, dado as costas a ela e entrado no quarto e me justificado: eu não posso sair, meu amor, sinto medo sei que tu vens, porque tu conheces os meus caminhos, meus meios, abro as portas pra você que sempre vens e talvez venhas porque sinto medo, de ver o sol, as nuvens que passam, mais me valeria que trezentos valentes entrassem pela minha porta e me flagrassem nua, mas eu sei que tu vens e meperdoe sete tuteio é só que não sei te tratar senão assim, eu não sei mentir só sei é de ter medos, dessas verdades que se cantam por aí em voz mansa de forma que se pareça mentira, “dizem que o mar vai virar sertão” e no fim eu não sei qual a mentira ou a verdade nas palavras, nas tonalidades, fico agastada e cansada, ora, pois ergue a pálpebra sobre os olhos do teu morto e mente pra si mesmo que tem luz neles, se podes, masnãotedesviesdemimmeubem tu me conheces e eu sou a única que te conhece, não te detenhas diante das tuas colunas, dos teus mármores, das cortinas, das tuas entradas, o templo é teu, meu imperador, tu conheces meus caminhos, as minhas entradas, te espero de braços abertos, adentra os prados que tu conhece tão completamente, toma na mão teus prados, sente o orvalho, o sabor e o aroma da noite, se vieres vou te fazer um laço a princípio, quando adentrares tuas colunas, quando sentires os toques dos teus deuses, em seguida te darei um nó tão apertado com meu corpo de modo que vamos nos fundir em uma única carne, e quando levantares para me deixar me deixarás carregando-me contigo, eu serei a marca intratável de ferrugem nos teus ferros, o teu ferro em brasa que virá pra marcar a tua escrava e não deixará essa minha carne sem levar nele minha própria marca, sem que se deteriore sem mim... pensarás que estou me abrindo para você, mas em verdade te estarei fechando em mim, na incineração total dos corpos, que queima, inflama tentando se ajustar a melhor posição sem parar nunca de arder, o beijo em transição, que encontra o seio de infinitas maneiras e não para nunca de procurar outras, melhores, enquanto meus óleos contribuem pra essa tua busca da perfeição sem avisar que essa perfeição, esse cume, ele está neste escorrego, nessa procura, nessa febre, nos nossos prados, celestes, queimando no fogo do diabo até que uma espécie de loucura aconteça, que sempre acontece, uma brancura na cabeça, uma claridão tomando conta do quarto quando enfim esquecemos o outro e nos voltamos somente pro nosso próprio prazer, nossos próprios rios, pressa contração feito metessem argamassa na gente, nos nossos meios, te aperto e sei que aquele nó encontrará sua completude neste momento, quando lá no meio das matas a mais escondida e mais frágil forma de vida se retrai e explode de alguma maneira oculta, nesse momento o laço se desfaz, voa uma borboleta em direção ao seu último instante, abro os olhos e me encontro num caos horrível, numa confusão que não se sabe onde se principia nem até onde se estende, e eu, sozinha, estendida completamente nua... murcha... os mármores tombados, os rios e as relvas secas e os seios como um céu de circo no chão, com todos seus sonhos e esperanças caídas no pó.

A. do Carvalho...
...em 26 de agosto de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A não juntar em miúdos...


Viagem as estrelas, não pretendo saber, que o sol, a lua se direcione sempre às minhas costas, pouco me interessa agora, e essa coisa, esse pouco, essa coisa única, essa coisa só que me faz interesse é espessa, densa, torna-se difícil caminhar por ela, tento apagar o que vejo porque o que vejo não é mais que paredes de pensamento, se deuses quais o tempo ou a inteligência poupou não mais que os nomes e as ilusões se resolverem desvelar em carne agora, então direi que é tarde e que se sele outra vez esses nomes embaixo dos oceanos, a minha fé morreu sufocada, lenta, cruel com dor, tentando entre espasmos tocar uma luz, e se debatendo como um demônio no céu, o furto lento e aos poucos do ar do moribundo, então, agora, aqui, já não procuro senão guiar na minha compreensão as minhas mãos, viagem astros livremente longe da minha ciência e assim se mantenham incólumes, dou as costas feito uma fêmea, algo que é e que algo dá, para que a luz, se reverso fosse entraria pelos meus olhos explodindo em quimeras, se faça fora deles mostrar nos limites das bordas da minha sombra porque estou cansado e só quero meu olhar sobre meus atos agora, sobre meus passos, quero entender essa composição, essa melodia de todos os dias e de todas as horas, da terra que contorna o sol ordenadamente ao fogo que queima desordenado e então me encontrar, sim, quem sabe talvez me encontrar entre um e outro – a transladação da terra, o movimento do fogo – somente olhando a palma preta da sombra da minha mão, e então compreender o que dia antes, dia depois do outro faz os nossos atos tão tortos, uma ligação, quero pegar o risco entre os corpos e compreender o instante que precede o punhal que entra na mão que acaricia, o dente que dentro do êxtase perfura a carne para encontrar o sangue e a dor de ter algo que se derrama de nós sem que queiramos, sem que possamos, sem que agüentemos... muitembora agüentemos – quandentão despedaçamos.


E a morte está não no despedaçar-se, mas no ajuntar-se.


A. do Carvalho...
...em 29 de julho de 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A última que morre...

Então que seja assim minha longínqua esperança, uma estrela distante, distante atrás do mar, parada e morta, porém iluminada, que sopre o vento, que balance o mar, que faça ondas não me atrapalhando nunca no jogo de pensá-la em movimento, não parada feito um quadro morto de morto no quarto agourento até meus olhos quebrados de quem aspira à cegueira notar ser minha estrela a lanterna de barca simples e cargas simples – não sendo jamais o contrário, entende?
A. do Carvalho...
...em 27 de julho de 2011

Década de 1930...

(de Jorjamado pra mim)
Acordo da minha dor ao som de apito de trem que parte, então eu brinco porque tem coisas bonita que brotam de umas feia, num repente percebo um não, porque o que eu planto aqui, onde não há perdão quase sempre brota longe, mas ignoro esse detalhe porque se não sonho não vivo um instante, penso, penso enquanto ainda desperto nesse vagão isolado dos olho de Deus entre sacas de fumo e de café, no cavalheiro distinto depois do jantar acendendo um charuto elegante diante da dona que traga um cigarro fino num desses cafés que só tem nas capitais, coisa bonita de se ver, o charuto para entre os dente do homem e põe uma pretensão num esboço de um sorriso enquanto o cigarro entre o vermelhão nos lábio da dama traz à superfície um assentimento, coisa bonita entre sexos que enrijecem e umedecem, entre botões de carne que brotam sob o tecido do vestido fino, enquanto a negra feia e acabada c’os cabelo tudo bombril está lá na fábrica, pegando bocado desse fumo com os dedos tudo calejado, triste, triste, com fome, fazendo o charuto fino que nunca vai fumar... bom é trazer as imagens em sequência contrária que dá mais gosto ou menos desgosto não sei, mas realmente penso ou brinco assim: se morro vou pro céu, como esse pão do diabo é pra gozá Deus depois, como uma preta na cocheira, dessas com o cheiro de fumo no cabelo duro prasquecer o gosto amargo de não ter uma ponta de cigarro a dias e brinco pra cabrocha que os cavalo são tudo meu, que é meu meu corpo marcado de açoite que chegou aqui da escravidão ainda, se bem que no tempo da escravidão tinha prato de comida, agora não tem chicote, não tem comida e tem o apito, tem o apito que desperta e adormece, a minha estação é a estação donde fica a carga, o vagão se abre, saio da clandestinidade e pego uma surra (de chicote) por mó de que não posso pagar a viagem e até meus sonho agora são cobrado, mas mesmassim brinco, que o quadro é feio.


A. do Carvalho...
...em 27 de julho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Isso é inércia...


E depois de um tempo desconfio dessa minha descrença e dou até um movimento no meu corpo tão parado, vê se um princípio de Arquimedes (talvez, as informações se embaralham apertadas na minha cabeça) traz alguma coisa à tona, uma coisa qualquer dentro de um movimento em direção de uma mudança, uma mudança que acontece tão devagar, tão pausadamente que quando a nota, a nota como um visitante súbito, sem preâmbulos porque ’stá tudo parado parece, e eu penso uma coisa tão pequena que só posso pensar se tratar de uma preguiça, uma preguiça de quem já pensou muito, já leu muito e já viu muito a ponto de totalmente caído num “acostumamento” não mais nota o pensamento que pensa, nem o que foi isso que leu ou viu, embora tenha lido e visto agora, mas há uma consciência, há uma consciência nisso, percebe?, essa consciência de que algo passou e te tocou e quando se percebe que foi tocado já é tarde pra compreender o toque, será, em nome dos deuses, que já tem demais (que nem é demais assim) na minha cabeça a ponto de ela estar cheia como está cheio o mundo que se me mostra sem que nada mais nele caiba de novo e de belo?, mas vê, não me esquece, eu vi uma consciência, é a percepção de algo que se moveu, que respirou, entende?, quanto um grão de areia largado a bilhões de anos-luz de qualquer civilidade pode influir no Universo Infinito?, deixa eu dizer que escutei como um eco só, como um ladino duende mágico que encobre a sua aparição com uma sensação de ter sido visto, só fantasia da minha cabeça onde nada mais cabe senão o que não tem corpo, uma fantasia como dizes, ínfimo, um movimento de escambo no meio da vasta floresta, uma pedra bonita que um índio leva, um pau-brasil só, uma tora só tirada da vasta, vasta Mata, só um e tendo sido um só, me deixa compor que se arranque outro depois, deixa eu mexer o meu corpo mais uma vez, então posso até andar para trás e me imaginar – depois de pegar que algo se mexeu em minhas matas – dentro do primeiro deslumbre português; uma folha jamais deslumbrada que balança dentro da Amazônia; eu vou balançar o meu corpo todo e sei que não vai ter depois de um tempo muito de perceptível ou imaginável, mas quero crer, por D... por essas coisas todas que envolvem e que dão só-dão sentido à palavra Deus – assim com um dê maiúsculo mesmo – que há uma engrenagem, mesmo que essa crença seja só um subterfúgio pra algo que a gente quer e sabe que não tem, que não tá acontecendo, mesmo que eu saiba que quando chegar em casa Galatéia ainda será um inútil aglomerado de marfim, vou imaginar, então vou só imaginar essas pequenas coisas, esses infinitos pequenos imperceptíveis movimentos que nos colocam dentro do Súbito, duma sensação de finitude, feito o buraco nas nossas matas com o qual nos deparamos ou o contrário, mais certo seria dizer: o mato no buraco, igual uma morte, coisa tão explosivamente grande feita de nada ao fim de um caminho de nadas constantes.
A. do Carvalho...

...em 23 de junho de 2011

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Meu Segredo...

Feito aquele segredo das orelhas de Midas, o que ninguém sabe, que ninguém sonda, o impronunciável, aquela vergonha, quisera eu pronunciado uma vez só fosse o teu, ante um buraco na terra – tanto melhor –, eu o esperaria como no fantástico caso, teu segredo da terra brotaria feito o do rei da Frígia e quando atingisse o tamanho de uma criança pequena como uma criança pequena sairia a pronunciar-se aos quatro cantos e eu no meu escasso canto receberia teu segredo nos meus e tal como me foi contado eu os transcreveria e tentaria por um tempo apanhar o “que se quer dizer” das tuas palavras como quem tenta apanhar a parte de um rio que ainda carrega o nome que o deram quando esse já não mais o é, quando esse já é mar, mas por pouco tempo eu tentaria, e logo então – porque tem andado fraco o meu pensar e fraca a minha disposição para desvelar qualquer mistério – traduzi-los-ia em minhas próprias verdades e nelas, tu me amarias.



A. do Carvalho...
...em 11 de maio de 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Àquela que se foi...

Olho-me nos olhos e é difícil entender, é difícil pegar, feito um mar que lhe arrasta sem que se possa mesmo dizer que você o toca, muito embora seja tocado, faz tempo, pode-se dizer que passou, que posso permanecer, como permaneço, mas eu ainda vejo, a minha inconsciência me leva ao fim do labirinto como se consciência fosse, como se pelos deuses guiado fosse, mas é tarde para atos heróicos, é tarde  para monstros enfrentar, é tarde para chegar onde quer que lugar seja, mas não querer não basta, moleza não basta, nem parar e chorar basta, os caminhos que percorremos são monstros que comem a própria cauda, o que nós somos são os monstros, o que nos move, antes de nossas pernas o são, num faz e desfaz tudo se faz é igual pensar, é igual ver filme, é igual ler livro, ser personagem sartriano: mais rápido que você possa pensar já está em outro lugar ou outro lugar já está em você e quando olho pralí pros meus olhos, algo me diz quando ainda estou indo olhar, ainda que já os visualizando, que já fui atraído pelo que neles há que é, neles, o lugar onde nada há, só uma ausência e dentro dessa ausência, vê, uma criança, agora mesmo enquanto escrevo eu a vejo, de verdade, tão perto de mim, tentando subir na cama sem conseguir, com os pés calçando o vácuo e as mãos moles que são de pouca ajuda, mas sabe, ela tenta, ela tenta mais de uma vez, não vai conseguir nunca escalar a cama, mas não vai desistir nunca porque a força dela é isso, o que a encoraja é isso, é essa mão sem força e esse pé cego, entende? eu mesmo não entendo, só entendo que ela se foi que essa uma coisa aqui atrás do que vejo fala e eu escuto distante, distante que agora é um dia e isso no quarto é outro que já ficou atrás mas num repente uma dessas coisas que vivem em camadas na nossa cabeça a trouxe pra me visitar, pra mim ver porque eu sei que ela se foi, essa criança, esse filósofo, esse poeta, esse alpinista, esse deusinho, essa poesia que vejo ela se foi, se foi, se foi, vai, vai longe não sei quantas léguas, não sei quantas verstas, não sei quantos passos mas é igual como ler livro e de repente aparece aí, mas é certo, ela se foi, talvez conduzida para uma caverna que não temos como saber onde pelo flautista de Hamelin,... calo, que compreendo que faz tempo então, mas eu ainda lembro, primeiro foram os ratos, depois as crianças.






A. do Carvalho...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mensagens...


E ergues tuas mãos, meu guardião...


Num gesto que se poderia dizer que de mim,
                pois por mim 
começas...

O momento que nos cerca,
áureo se faz, feito como se com tuas mãos a luz do sol não mais se pudesse conter nas nuvens que ali estavam e se fizesse Mensagem...

Em silêncio faço que entendo,
em silêncio entendo Tudo como parte inerente desse não entender ilimitado
em silêncio, eu não entendo nada.
Nada que não seja a compreensão do lugar e do estar onde se está há tanto,
no Silêncio, o Guru entre os gurus, o Sábio entre os sábios.

Fico. E é muito.

Mensagem, o Presente de um Anjo.
Um Instante destacado duma eternidade doutros instantes...

Se Deus há, certamente és serafim –  na compreensão que agora me toca
que essa luz Só-Ela só pode ser a única coisa que separa essas coisas grandes do pensamento que a gente faz,
essas coisas de Deus e Serafim...

Essas coisas de luzes, de seres, de imaginações; essas quimeras que se montam nos nossos intentos, nos intentos seus que eu faço em minha loucura...
...e vêm clarear, e vêm destacar os meus gestos tão vazios, tão parados e inauditos desse lugar, desse lugar onde mora a promessa de um lugar em destaque, uma diferença...

Tocado por essa luz, tudo avesso é,
como a mortalha cobrindo o rosto morto,
que, desvelado revela a face de um deus vivo
luminoso...

feito a luz primeva.



A. do Carvalho...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A vida sempre assim...

Sair todos os dias e ver que tem sol mais uma vez, que sempre terá e com isso alimentar dentro de si um monstro que se tornará isso, a que chamamos irremediavelmente certeza, certeza que também crescerá e se tornará uma certeza absoluta, de que não iremos ou que só provavelmente iremos, dependendo da maneira de pensar, a Lugar Nenhum.



A. do Carvalho...

A vida sempre assim...


Ai, não seja a vida sempre assim...


Aqui, no fundo do quarto onde sempre estou, o azul do céu encontra um jeito de entrar e sentar nas coisas com uma suavidade ladina, como um lorde inglês sobre a cruz perfeita de suas pernas, prometendo novidade, como um amigo inconveniente, esse azul, que não se aparta nunca e se faz, o tempo inteiro, sentado ao nosso lado, na nossa cadeira, sem hora de sair. Jaz aqui mais uma vez a divina luz se erguendo em meus pés, pernas, coxas, pau, cintura, mãos, ventre, braços, cotovelos, dorso, peito, na minha cara, no meu cabelo. Tudo a iluminar. E, vejo no espelho sem realmente o ver, algo por detrás da máscara de minha quietude, algo além de meus lábios cerrados, algo em mim do tamanho dessa luz, como se sua sombra fosse, grita um grito louco, um grito insano de beata louca que arranca os cabelos, puxando-os com a brutalidade de quem deseja expor o cérebro como quem tira uma seda de sobre um bouquetde flores, um grito de Maria I nos corredores do Palácio de Queluz se forma dentro de mim, se ergue grande como um Polifemo desesperado de medo, e eu sinto o meu corpo quando este sente a última vibração de um tremor que se espalhou por ele e se extinguiu sem que o sentisse deveras.

Não pode ser a vida sempre assim...
Quantos são?, os que sentem o momento exato em que essa escuridão sem remédio atravessa o véu que é entre o que é dia e o que é noite, essa que nos vem, nem bem Aurora terminou seu labor trazendo de volta a mão para junto do corpo pro Carro Solar passar pela sua frincha, se recorremos a mitologias. Ou sendo mais verdadeiro, quantos são os que sentem essa força demoníaca, essa força satânica, essa Uma escuridão, que cresce do nosso lado, talvez à nossa direita e faz a Terra girar à sua volta, à procura da iluminação desse astro distante e estagnado do céu de todas as gentes?...

Essa Claridade infinda, essa chama imperecível que não para nunca, não para um só dia de cair sobre essas nossas cabeças cobertas de anátemas...

O simples ato de levantar na manhã de todos amanhãs e vê que é dia mais uma vez...
...tem sido desesperador, olhar o sol outra vez, o calor na carne, a vida que pulsa...

E que mais? E o que mais há?

Não seja a vida sempre só isso...
Não pode ser sempre só isso, Céus...
...um girassol desesperado fitando o sol do nascente ao poente...

Pedindo: "Vida!".



A. do Carvalho...
 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Inferno Asteca...


Então, quando Tlaloc mandou a chuva por entre os fios de sol e abri os olhos o que achei ser uma última vez numa cara exangue totalmente caída, vi os restos de meu corpo empapado fundidos a terra, indo embora junto a lama, os restos de carne que antes me compunha, meu sangue ganhando uma cor menos gritante saindo do carmesim muito vivo e entrando na terra marrom acinzentada molhada. E foi só quando olhei para meu ventre despedaçado, totalmente moído, que o gritante voltou a tocar nas coisas existentes e toda a gritaria, o caos, os ruídos dos cascos daqueles veados sem cornos daqueles supostos deuses, todo o barulho ensurdecedor que cresce dentro de nós ao ver que um deus se ergue diante de você contra você trazendo nas mãos aqueles fulminantes paus-de-trovão que hão de fazer um Mictlan, como um espanto, nascer e crescer no seu corpo onde ele acertar; toda essa zoada, como o mugido de uma hecatombe que se fizesse ali diante de seus tímpanos finalmente desprendeu-se do suspenso e caiu estrondeante no chão quebrando todo e qualquer conceito de uníssono. Pois eu percebia ali, olhando sob a magia do sol no meio da chuva aquele ventre massacrado de muitas cores: de um vermelho-arroxeado misturando-se ao marrom-escuro-esverdeado no meio de um preto podre sob o coração que deus algum comeria, já era certo e irremediável, eu percebia que o Mictlan, ou o seu inferno, oh español, queimava totalmente aberto à luz de Tonatiucan, o nosso paraíso asteca, e a chuva que caía nesse momento entre raios lânguidos de sol era a mesma adorada chuva, digna de rituais agradecidos. Eu percebia que os sacerdotes estavam errados, todos eles, ou fomos tolos demais para apreender durante toda uma existência que a treva do Mictlan, o nada do Mictlan, o inexistir dentro da existência do Mictlan é simplesmente escuridão escura. Eu podia, na morte, ver dois mundos se fundindo diante de meus olhos sobre a garganta em erupção levando embora o pouco que restava do meu sangue, dois mundos, e onde eu via no deusespañol, com sua carne ardente e brilhante como o fogo e o trovão nas mãos o equivalente (ou o próprio) ao nosso Tonatiu, se erguia agora, tenho certeza e gelo ao pensar que já no Mictlan e livremente, o nosso mais cultuado, o mais adorado e temido, deus da guerra, Huitzilopochtli, Huitzilopochtli e a deterioração que acompanha seu passo. Huitzilopochtli no Lugar onde tudo devia ser Nada. Eu não entendia, embora percebesse coisas outras, embora colocasse toda a minha consciência nesse olhar a ponto de sabê-lo o último, tudo em mim me dizia sem uma palavra, sem uma dor, sem um espasmo mais, sem um fremir que eu já estava morto e selado para sempre no meu destino; eu sentia com a minha consciência, a última parte de mim ainda viva, toda a promessa dos Antigos finalmente levando embora aquelas cores, aquele deus, tomado conta dos membros, o tronco todo, chegando à garganta, no coração que doía uma dor totalmente inefável por não ter subido ao altar e voado em glória à última morada de meus antepassados, indo parar na graça de um de nossos deuses cujos próprios corações já haviam sido tomados pelo homem branco do Mundo Antigo... e o meu não entender era um entender em demasia, embora meus membros e todo o corpo resto adentrasse passo a passo a antes tão temida e agora desejada escuridão de Mictlan, a minha consciência caminhava serena e visitava a moradia de cada homem da antiga e pequena Aztlán, do mais nobre ao mais pobre, à glória de Tenochtitlán. Eu caminhava no meio do que fomos e meu coração chorava ao recordar que esse caminhar era um caminhar a um só passo, a uma só tristeza, uma só morte. À extirpação de um só coração, o correr de um só sangue. À queda de nossas pirâmides, de nossos deuses, de nossas lógicas e até... de nossos infernos.

Homem nenhum, deveria morrer antes de seus deuses.







A. do Carvalho...


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

E se a vida fosse só aplausos?...

E se a vida fosse só aplausos?

Eu ia correr, deusdocéu!, como eu ia correr, com força espremer a ponta do cigarro recém aceso contra o cinzeiro e sair pela porta, me metendo até as bolas a essa vida que é assim só aplausos, dançar e dançar como um esquizofrênico epiléptico é o que eu faria agora naquele momento, com muita rapidez, muita rapidez que é porque a vida é só aplausos nesse momento e eu quero pegar ela toda e eu quero viver com gestos dentro desse momento pelo menos o dobro do que vivi nessoutra vida que vim vindo sendo até aqui, que não tinha nada de aplausos nela, mas nessa de agora que tá acontecendo aqui tem e eu vou sambar, vou frevar a sombrinha por debaixo das calças porque, deus!, é só alegria e eu quero sorrir, aqui, agora, hoje, nesse minuto, antes que acabe não tire de mim esse riso, essa dança, que essa é toda minha ilusão e minha vida; essa vida que é só assim, em aplausos.


A. do Carvalho

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Esse silêncio...

Então é por isso?, que se torna tão importante e inadiável abrir as palavras como braços que se abrem para apartar, para apartar o silêncio. Ser perspicaz e desesperado o suficiente para identificar o silêncio num vão de quarto ou no aberto duma praia e formar ao redor dessa inanição das palavras palavras que cubram essa ausência de coisas não ditas, palavras que lancem sombras sobre esses... esses silêncios.

Então é por isto?...
Mas que é esse isto, em nome dos deuses?...
Suposições, memórias, invenções ou poesias?

Há quem ainda diga, que por dentro de nós passam rios, ou ainda que somos, nós, rios que seguem não sei eu pronde...

Fecho os olhos e sinto minhas pernas tremer, como se submersas por água corrente elas tentam e só tentam andar. Pergunto em súplica aos deuses - se algo ainda resta deles - ou a mim mesmo ou a qualquer coisa que se me escute dentro de mim o porque do sangue que jorra de mim por cima da carne imaculada, o porque do pus sem chaga, sem corte. Minhas cicatrizes não estão todas fechadas?

E por que é?, do sangue que derramo de Outro's sem que a mão erga, ou a voz, ou... eu nem tenho voz.
Será mesmo isso?, a ausência das palavras, dos atos, de um sentar e de um deitar, será o revés de um grito que se faz curvar abatido aqueles que quero eretos e iguais diante de mim?

Fecho os olhos dentro de mim imaginando, enquanto faço caladas perguntas, onde é que a luz - seus derivados - nasce, onde dorme e onde acorda.
Onde e como e por que e para quê faiscam as coisas. Tento encontrar, num momento em que trago um sol pro pensamento, o momento exato em que a luz de uma sombra se faz caindo por detrás de uma árvore... e tento entendê-la. Tento não mais desesperado, mas simplesmente cálido, pouco impassível - que é preciso dessa serenidade pra isso - olhar de um só e único tempo a árvore e a sombra, enquanto jogo pra fora de mim e dessa paisagem, todo o vento, a mais ínfima centelha de vento; quero a árvore parada, quero sentir o movimento desse sol e observar, pois-como-preciso, vida, encontrar algo no movimento quase imperceptível da sombra sem o balanço da árvore, porque tudo isso "faço" tentando alcançar o primeiro golpe, o primeiro virar de costas, ando agachado de dentro do dentro de mim: duas vezes dentro, procurando aos tateios pela fonte de onde surgiu e ebuliu o sangue primeiro.

Saio de tão fundo e fico somente dentro de mim, com aquelas águas atravessando minha cintura, vindo não sei de que lugar, indo não sei pra que lugar, dentro de mim abro olhos e me pego consciente agora, naquele pensamento primeiro, Então é isso?, é inerente?

Mas onde nascem os silêncios?
Besteira, pode ser que seja mesmo! inerente.
Mas onde nasce?...

Tragam-me, rios, ou traga-me. Só não me deixe outro dia sem respostas.
De quantos irmãos a garganta cortei e quantos foram os corpos que afundei no Tigre ou no Eufrates: dependendo de qual estivesse a menos passos de distância? Quantos foram os rostos de iguais que afoguei no Nilo enquanto membros se debatiam como as palavras de dentro de mim se debatem chorosas precisando sair sem que na maioria das vezes eu dê por elas até se calarem esses membros e eu os reconhecer finalmente como semelhantes do meu silêncio... só até senti-lo de novo como um grito em suspenso que voltará aos ouvidos do mundo... senão nessa noite, na outra, ou na outra até atravessar as vidas?

Cobrir o silêncio pelo lado de dentro cansa em demasia...
Estirar panos sob o silêncio...

Começo a abrir os olhos antes de começar a me afogar e como quem vê, escuta e sente de relance, vejo, escuto e sinto portentos babilônicos, como uma lâmina erguida em nome de Marduk, como um rio de sangue que corre caudaloso onde deuses sanguinolentos se saciam da sede tão quimeramente herdada por nós, então volto a fechar os olhos como quem ergue a palma de uma mão pra apanhar algo, como quem mergulha pra dentro de si, pra dentro de um rio de correntes poseidônicas e com urgência vou ao fundo como quem vai a procura de um ente, de uma amada, mas não tem mais nada aqui e isso tampouco é o rio caudaloso que pensei, estou no meio do oceano, no fundo sem fundo do silêncio inextinguível do oceano.


A. do Carvalho...
...em 31 de janeiro de 2011

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Veraneando

Ao poucos criei comigo, cultivei mesmo sem querer, certa impassibilidade. Totalmente impassível, sabe? Assim meio parecido com esse negócio que escorre de detrás das coisas quando o sol bate na sua frente ou que escorre da frente se o sol bate nas costas, entende?, como uma sombra. É, uma sombra... que nada procura.

Nem lembro quanto tempo faz, criei um estado escuro, pouco úmido a minha volta. Nele me faço ou me cuido enquanto estou doente, só fico, que é meio preguiçoso nele. Tento me salvar, vezes que penso que a febre não vai passar e o inerte dos membros vão permanecer, desvairado até coloco desvario no pensamento de que o sol vai correr, vai sair do lugar, vai pra frente, vai pra trás, não terá sempre sombra e não será preguiçoso sempre aqui e pensar que não será preguiçoso sempre me inquieta, então tento correr pra fora do estado, levanto-me com os pés e com as mãos, mexo rápido as pernas pra me tirar daqui correndo, mas é úmido, escorrego, perco o chão, fico no ar um pouco espasmódico e! é, caio um pouco desengonçado, meio dentro de um ridículo.

Penso as vezes que tá tudo bem, que não depende de mim ir pro sol e que talvez ele, o sol, é quem escolhe pra quem nasce quadrado dizendo nessas palavras, assim. E é aí, nesse instante exato em que começo a pensar que encontro um socorro - usando essas palavras assim tão dramáticas, se bem que drama lembra tragédia e tragédia me lembra as satíricas em que se chora nela toda pra rir no fim ou o contrário, não lembro bem, mas vê -, encontro um socorro. Por um momento fecho os olhos e me esforço, me esforço de verdade como numa jaula humana onde sua unica grade ou comogol está alta demais e num esforço fico na ponta do pé pra sentir o sol na cabeça que assim é mais fácil pensar certas coisas.

E eu penso em você e quando eu penso em você eu pego um momento e não importa a data e não importa que horas são nem se é noite ou dia útil e nem menos pouco importa se é tarde lenta de domingo ou uma segunda fodida de muito trabalho sobre a mesa porque quando eu penso em você eu sinto na minha cara uma passagem como de estação e se o sol não cobre por completo a essa cara seca e rasgada coloco nela um pensamento de sombra de folha de outono que amarela e seca e voa numa brisa vindo de sei lá donde se do Olimpo ou de algo bonito como o revés de um caralho o revés de um palavrão bem feio porque digo palavrões se algo que devia ser bonito me atrapalha e o vento frio de inverno vem e por um momento uma nuvem que como uma esponja absorve o sol da minha dor aparece pra sumi-la e é nesse momento que escorre sangue e a armadura enferruja e cede sobre meu corpo criando frestas por onde umaquela preguiça começa a se esgueirar por dentro de mim como ursos e musaranhos e ouriços e esquilos e marmotas e morcegos querendo hibernar ou hibernar-me mas eu penso em uma força bem muito forte e penso que é minha essa força e coloco toda em você ou no pensamento meu de você a fim de criar uma luz clara e grossa e iluminar com essa luz clara e grossa alguma coisa que já é ou está ou ainda está ficando escura e me enchendo de sabe-se bem o quê então e só então que desesperado penso primaveras eu penso equinócios primaveris bem de com muita força e faço o equinócio passar pra que os dias sejam mais longos e as noites mais curtas e os dias mais longos e as noites curtas e é quando eu chego ou o meu pensamento que vinha indo a você meio esforçado te chega e você ou tu - e penso até um nós - refloresces como um toque refloresce de um tateio e uma luz de uma sombra igual uma morte de uma vida e vezes uma vida de uma morte e então quando isso acontece eu já estou perdido entre a primavera e o verão e o que saiu do meu pensamento de ti - e me perdoe te chamar já assim de ti mas estou tão perdido e é tão bom - e o que refloresceu do meu pensamento de ti são coisas inenarráveis ou inomináveis ou tudo junto não sei mais mas parece que Deus deixa de estar morto e varre e sopra pra longe tudo junto como umidades-folhas-nuvens-preguiças-etcs e então chove uma chuva totalmente enxuta porque agora irremediavelmente meu pensamento toca você...

...e a verdade é que quando eu penso em você eu pego um momento e não importa a data nem as horas nem quando porque quando eu penso em você é sempre Verão.



A. do Carvalho...
 

Linhas...